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SERRA-ES
26 fevereiro 2021

Usuários de crack invadem áreas nobres de Vitória

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“A gente precisa pedir licença aos craqueiros, na porta da loja, para permitir a saída dos clientes”. O relato é de um comerciante da Praia do Canto, na área nobre de Vitória, que precisa conviver com os usuários de crack. Ir à padaria na esquina da rua ou passear com as crianças na calçada se tornou um “pesadelo” em uma região que poderia ser chamada de Triângulo do Crack. Há até médicos e advogados entre os viciados.
Vizinhos do crack há cerca de seis anos nos bairros Praia do Canto, Enseada do Suá e Praia do Suá, no entorno da Praça do Pedágio da Terceira Ponte, moradores, comerciantes e quem passa pela região se deparam dia e noite com grupos de até 25 craqueiros amontoados nas calçadas, nos acessos aos prédios, nas praças e dentro do comércio.
Além do consumo do crack, que é feito livremente, a população reclama de brigas, cenas de sexo explícito e até tentativas de homicídio entre os usuários, cujo número aumentou quatro vezes nos últimos dois anos, segundo os moradores. E, coincidência ou não, as ocorrências de furtos também aumentaram.
Crimes
Uma loja de decoração de alto padrão na Avenida Desembargador Santos Neves, na Praia do Canto, uma das mais movimentadas, foi invadida cinco vezes nos últimos 18 meses. Segundo os proprietários, foram pelo menos R$ 3,5 mil em prejuízo e queda nas vendas, já que os clientes têm receio de se aproximar. O jardim na frente da loja, quase destruído pelos usuários, virou um ponto fixo de consumo de drogas em grupo.
Mas os furtos não se restringem ao comércio. Segundo uma síndica, que não quis se identificar, no último ano, ao menos quatro condomínios em torno da Praça do Cauê – espaço público que virou palco de reclamações constantes sobre usuários de drogas – foram invadidos, alguns mais de uma vez.
A presença da Guarda Municipal de Vitória é constante e a Polícia Militar realiza abordagens, atende aos chamados e atua todo o tempo, segundo os moradores. Mas os usuários permanecem na região. “Além disso, as assistentes sociais da prefeitura vêm aqui, recolhem alguns, mas no dia seguinte estão de volta e, três dias depois, estão sujos e maltrapilhos novamente”, reclama outro comerciante.
Segundo o presidente da Associação de Moradores da Praia do Canto, são mais de 12 pontos fixos de consumo no bairro. Na Praia do Suá, o ponto mais crítico é a praça do bairro, onde usuários costumam se prostituir para sustentar o vício, de acordo com a comunidade.
Convivência
Presos dentro de casa e enxergando o problema como algo sem solução, os moradores contam que aprenderam a respeitar os viciados, agindo de modo a evitar todo tipo de atrito, pedindo até licença para sair de suas casas ou para entrar no comércio.
“Se a gente age com firmeza, jogam pedra, ameaçam. Pedimos para fumarem, pelo menos, depois que o cliente sair da loja”, relata um comerciante que, indignado, diz que a comunidade está abandonada pelas autoridades.
O tenente-coronel Alexandre Ramalho, comandante do 1º Batalhão da Polícia Militar de Vitória, explica que foram abordadas 150 pessoas em situação de rua e consumo de drogas, apenas em abril deste ano.
Para ele, entre os fatores que promovem a permanência dos usuários nessa região, estão o acesso fácil às drogas no Morro de São José e também as doações de alimento e até dinheiro feitas pela população. Um frentista informou que clientes do posto onde trabalha chegam a doar R$ 30 com pena dos viciados.
“A legislação permite a atuação da polícia apenas em situação de crime. Na verdade, precisamos reunir forças para lidar com essa situação que é um problema de saúde pública”, pondera Ramalho.
O aumento de usuários de drogas nessa região é uma realidade, de acordo com a Secretaria de Gestão Estratégica de Vitória, Bianca Assis, mas isso não reflete a realidade da Capital. Segundo ela, os viciados do Triângulo do Crack seriam uma comunidade nômade oriunda de regiões como o Centro de Vitória. Por essa razão, ela explica que o município intensificou os trabalhos.
A iluminação pública foi melhorada, as árvores podadas, foram limpas as calçadas e instaladas câmeras de videomonitoramento para combater o consumo de drogas. “Desde fevereiro de 2013, já tiramos das ruas mais de 600 pessoas em situação de rua em toda a Capital. E, nesses bairros, temos assistentes sociais trabalhando manhã, tarde e noite, todos os dias , com o máximo esforço. Porém, os usuários precisam querer aceitar a ajuda”, diz.
Por causa dessa escolha pessoal, é que o coordenador estadual de Política Sobre Drogas, Gilson Giubert Filho, explica que é interesse do governo criar uma rede de atendimento que integre município, Estado e comunidade, para oferecer reabilitação, educação e trabalho para o dependente e seus familiares.
“O problema da saúde pública hoje é muito ampliado. É preciso uma abordagem multidisciplinar que atenda aos dependentes e também sua comunidade de origem”, reflete.
Famílias saem de casa
Com o perigo morando ao lado, nos bairros Praia do Canto, Enseada do Suá e Praia do Suá, em Vitória – o Triângulo do Crack – onde o consumo da droga acontece livremente, famílias inteiras estão se mudando para outros bairros em busca de mais segurança e qualidade de vida.
É o caso de uma servidora pública, que por medo prefere não se identificar. Hoje, ela demora quase uma hora a mais para chegar ao trabalho, enfrenta trânsito lento e gasta mais dinheiro, pois precisa almoçar fora de casa, mas garante que o preço vale a pena.
“É o valor da nossa liberdade. Eu e minha filha tínhamos medo de sair de casa à noite. Da janela, víamos coisas terríveis. Minha filha foi assaltada. Tentamos conviver com isso por 10 anos, mas depois foi impossível, então nos mudamos para o outro lado da cidade”, relata.
A servidora e sua família moravam em um apartamento na Rua Ulisses Sarmento, na Enseada do Suá, que por ser uma rua bucólica, recebe usuários de crack frequentemente, segundo ela.
Para Anderson Macarenco, síndico de um condomínio de luxo na Avenida Dukla de Aguiar, no mesmo bairro, a presença de viciados em crack na região é sim um dos motivos que tem levado moradores a se mudar do bairro.
“Em nosso prédio vivem mais de 50 famílias. Com a poda de algumas árvores, melhorias na iluminação pública e outras ações do município, a situação melhorou muito em frente ao nosso prédio, mas no entorno muita gente ainda sofre”, diz.
A síndica de um condomínio próximo a Praça do Cauê, poucas quadras dali, relata que em dois prédios vizinhos, pelo menos quatro famílias já se mudaram porque não “suportavam mais a situação”.
“Você passa em frente aos prédios e vê muita placa de ‘aluga-se’. Logo que mudei para cá fui informada de que havia um morro perto daqui, mas não imaginei que a droga tomaria conta do lugar”, desabafa.
Segundo ela, muitos dos vizinhos que antes ofereciam até tratamento gratuito para os dependentes já pensam em sair do bairro.
Fonte: Gazeta Online

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